Minha memorialista preferida nos encanta agora com histórias de sua cidade... Montes Claros-MG
Tenho que registrar aqui esta introdução!
Qeu relato delicioso!
RUA DE BAIXO
Introdução
No “tempo antigo”, como dizia minha avó Lica, Montes Claros era naturalmente dividida em duas regiões distintas, às vezes chamadas de Rua de Baixo e Rua de Cima. Separadas pelo Largo de Baixo, mais tarde Praça Dr. Chaves, as duas eram tão diferentes uma da outra quanto a zona norte e a zona sul do Rio de Janeiro. Eram diferentes também na política e até na música. Tinham suas próprias bandas. A banda “de baixo” chamava-se Euterpe Montesclarense escrito sem o hífen. Fundada no tempo do Império por Dona Eva Bárbara Teixeira, a banda desfilou pela primeira vez no dia 3 de Julho de 1857, quando a Vila de Formigas foi elevada à categoria de Cidade de Montes Claros. Seus músicos eram monarquistas até à medula, razão pela qual se recusaram a tocar em comemoração à Proclamação da República. Alguns anos mais tarde, surgiu a Banda Operária do partido “de cima”. Na época do império, grande parte dos moradores da região “baixa” pertencia ao partido liberal trazido para a cidade por Antonio Xavier de Mendonça entre outros. Isso significava que, embora apoiassem o Imperador, lutavam pela abolição da escravatura. Com a queda do império, as diferenças permaneceram.
Apesar do antagonismo político, não creio ser essa a causa da diferença no viver. Os habitantes da parte logo acima do Largo da Matriz, seguiam os Prates na política, exatamente como os habitantes das ruas de Baixo. Muitos com Prates no sobrenome. E levavam o mesmo “sofisticado” estilo de vida dos membros do partido de cima, ligados ao Dr. João Alves. Portanto, a causa da diferença permanece misteriosa. O pessoal de cima, com exceções, parecia ser menos tradicionalista, enquanto os moradores da Rua de Baixo, ou seja, da Rua Padre Teixeira e arredores, eram conservadores, vivendo numa região riquíssima em cultura popular, onde as tradições eram mantidas. Vale dizer ser a região mais antiga da cidade, onde toda nossa história começou. Daí o visual “ouro-pretano”. Houve um tempo, já bem longínquo, que esse era o visual de toda a cidade. Mas enquanto construções modernas surgiam na parte de cima, a parte de baixo mantinha seu estilo barroco parecendo guardar ali a alma mineira como dentro de um relicário.
“Éramos uma única família”, conta minha mãe com olhar sonhador. E explica: “A Rua de Baixo era a Padre Teixeira. Mas as pessoas que moravam nas ruas próximas eram todas unidas da mesma forma. Era tudo igual”.
O mesmo não acontecia com a outra parte da cidade. Não havia uma rua específica com o nome Rua de Cima. Porém havia o Largo de Cima, a atual Praça Dr. Carlos. Cyro dos Anjos, no seu livro “A Menina do Sobrado”, fala do seu medo de apanhar se andasse sozinho pelo Largo de Baixo. É que ele residia no Largo de Cima!
Na minha infância essa diferença era bastante visível. Eu a sentia dentro de casa. Meu pai era cria da Rua de Cima e minha mãe só deixou a Rua de Baixo após o casamento. Meu avô paterno, Basílio de Paula Ferreira, habitava na Dr.Veloso, isto é, na parte de cima da cidade. E meus avós maternos moravam na Padre Teixeira. As casas eram parecidas, mas não a forma como viviam. Minha tia Maria era uma “cosmopolita”, usando perfumes franceses, com cabeleireira pessoal cuidando dos seus cabelos diariamente e outras sofisticações. Suas primas da Rua de Baixo, embora bem vestidas, eram adeptas da simplicidade. Vovô Basílio gostava de brincadeiras. Puxava nossas pernas com a bengala, nos colocava em seu colo, nos fazia cócegas. Se por esquecimento - visto que ele não gostava disso - pedíamos a benção, respondia: “Deus te abençoe, seu nariz é de boi.” E ria alto.
As visitas aos outros avós aconteciam cerca de uma vez por semana. Lá chegando, o pedido da benção era obrigatório. Vovô Olimpio respondia de forma tradicional, com seriedade, me olhando nos olhos. “Deus te abençoe minha neta”. Os rituais eram sagrados na Rua de Baixo. Eu gostava imensamente das duas casas e dos dois vovôs. Infelizmente, não conheci minha avó Joaquina.
Minha mãe manteve expressões usadas na Rua de Baixo por muito tempo, mesmo quando não mais faziam sentido. Ainda mantém algumas. Cito dois exemplos: a “porta da rua” e “o café do meio dia”. Na Padre Teixeira as casas não tinham alpendres. As portas eram voltadas para a rua, daí a expressão. Já na nossa primeira casa, ganhávamos a rua por um corredor lateral. Mesmo assim, a porta da sala de visitas era chamada ‘porta da rua” por minha mãe. O motivo só pode ser um: na Padre Teixeira saiam para a rua sempre pela porta da sala principal.
Nossa segunda casa tinha porta para um alpendre. No entender de minha mãe seria essa a porta da rua. Até que deu certo. Era a única porta de saída da casa sem contar com o portãozinho do fundo do quintal. Porém, em 55, mudamos para uma chácara com a casa lá embaixo. Três portas dando para o alpendre em frente ao muro vizinho. Uma saindo da biblioteca, outra saindo da sala de visitas e a terceira, a mais usada por todos, saindo da sala de jantar. Para chegarmos na rua temos de subir por uma extensa área ajardinada até ao portão que dá acesso à Avenida Coronel Prates. Seria o “portão da rua” sem sombra de dúvida. Portão da rua? Tal expressão nunca existiu na Padre Teixeira do passado. As casas não tinham portões! Com toda certeza minha mãe percebeu que, na parte de cima da cidade, até as casas eram diferentes. Muda-se então a definição de ‘Porta da Rua” para a porta principal da casa, a mais usada. Mas a expressão permanece. Ainda hoje ela me pede ao deitar. “Verifique se a porta da rua está fechada.”
Já o “Café do Meio Dia” foi mistério para mim durante muito tempo. Ao meio dia estávamos no almoço. Era comum um cafezinho após a refeição, mas o café do meio-dia era servido às 3 horas da tarde! Por que “do meio-dia?” Resposta: porque era servido ao meio dia na Rua de Baixo! Minha mãe mudou de rua, adaptou-se aos novos horários, mas não mudou a maneira de falar. Ela conta que houve demora na adaptação. Quando solteira, costumava se levantar às cinco da manhã. O almoço já estava pronto às nove. Ao meio dia tomavam o “Café do Meio Dia”. Jantar às três. Lá pelas sete horas da noite vinha uma refeição ligeira. Às nove horas já estavam dormindo.
Vem o casamento. Minha mãe mora um ano na casa dos sogros. Hora de levantar: seis horas ou sete! Almoço ao meio dia! Que fome! Às 3 da tarde, o café com pão. Jantar às sete da noite. Recolhimento para dormir só depois das 10 horas! Tudo muito diferente. “Que povo prosa esse da rua de cima”, pensa minha mãe recém-casada, ciente que, do outro lado, estavam dizendo: “Que povo jeca esse da Rua de Baixo.”
Claro está que não era bem assim. E nem tudo era rivalidade. Meu pai, por exemplo, além de ser “de cima”, tinha estudado fora: Belo Horizonte, Juiz de Fora e Niterói. Tinha alargado bastante os horizontes, sem deixar de ser norte-mineiro. Dava o maior valor às sapiências antigas tão enraizadas na Rua de Baixo. Ao escrever seu livro “Montes Claros, Sua História, Sua Gente e Seus Costumes”, muito se valeu da sogra, sogro e esposa em suas pesquisas. “Fina, como é mesmo aquela simpatia para ficar bonita?” Resposta de mamãe: “Basta comer cabilouro atrás da porta.!” “Tia Lica, preciso da receita de João Beó para meu livro.” E lá vem vovó com tudo escrito. Foi com eles que aprendeu a penitência pra chover, a reza para curar espinhela caída e por aí afora.
Meu avô colaborou de outra forma. Ficou a seu cargo as partituras musicais de todas as músicas folclóricas e modinhas. Era músico e compositor de mão cheia. Tocava clarineta, foi membro da Orquestra Carlos Gomes e da Banda Euterpe. Fazia sabão, fabricava inseticida com folhas de eucalipto da Chacrinha (que jamais provocava alergias), e jóias diversas, ourives que era. Todo seu trabalho era feito num cômodo especial por ele denominado Tenda. Que vontade de rever aquele lugar, de poder visitar a casa inteira. Não sei ainda como fazer isso, mas, posso ter um gostinho através da memória. Convido a todos a irem até lá comigo enquanto recordo certa manhã.

